Caderno 2 – Entrevista Apparat Fevereiro 5, 2008
Posted by Monique Oliveira in Estado de S. Paulo - Caderno 2.Tags: apparat, cultura, música
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Apparat e a eletrônica intimista
Produtor alemão cansou do laptop e traz banda para show dia 25, no Ibirapuera
Monique Oliveira
Com uma estrutura de banda, o DJ e produtor alemão Sascha Ring, ou Apparat – nome que significa aparato em alemão, mas ao qual o produtor evita dar qualquer significado mais conceitual – é a principal atração do Motomix para os apreciadores de música eletrônica. Ele se apresenta no dia 25, domingo, e de graça no Parque do Ibirapuera. O DJ (que também é conhecido pela polêmica frase ’sou um desenvolvedor de sons, não de batidas’) traz faixas do recém-lançado The Walls, álbum intimista e melódico – como as suas últimas produções.
Em entrevista por telefone, de Berlim, Sascha explica que, apesar de ser a cidade onde se tornou conhecido, ele não compartilha do mesmo gosto musical reinante por lá. ‘Nunca me senti um alemão, só não me pergunte de onde eu venho.’ Segundo ele, seu som é muito pouco requisitado para os clubes de lá. ‘A noite berlinense aposta em sonoridades pesadas. E não é meu tipo de som.’ Na Alemanha, o minimal representou apenas um modismo, e o trance, tão popular nas raves brasileiras, nem chega perto dos line ups. De inspiração para o mundo inteiro, o país é a Meca da música eletrônica. Galpões vazios, após a queda do Muro, fizeram com que conceber um clube ficasse simples e barato. Aliado à cena de Detroit, o país se tornou o mais prolífico de selos e produtores da e-music.
Sascha foi na leva daqueles que aproveitaram o boom do tecno no início dos anos 90 e, desde 1999, é um dos donos do selo Shitkatapult. Da sua proveitosa parceria com Ellen Alien, que tocou no D-Edge em março deste ano, nasceu o Orchestra of Bubles (2006), álbum ovacionado pela crítica no mundo inteiro. Os projetos com a DJ, que muitos aguardam, e cujas inflamadas performances atraem curiosos ao YouTube, estão adiados por enquanto, segundo Apparat. Eles seriam perfeitos para algum festival brasileiro que quer ter nomes de peso em sua seleção.
Ele está cansado da batida 4×4 – aquele conjunto de bpms que se repete de quatro em quatro vezes -, que, para Apparat, é o pressuposto para qualquer produção que deseja ser hit de um clube. ‘Muitos dizem que o minimal e muita coisa da música eletrônica são iguais. Em parte, é verdade, porque eu sinto falta de mais variedade nos clubes. O que se ouve são quase sempre variações da mesma produção. Só não quero mais fazer parte de tudo isso.’
E realmente as produções de Apparat estão fora das sonoridades de estilos mais consagrados e, embora se aproximem de uma atmosfera lounge, downtempo, suas faixas se tornaram quase um gênero, e pressuposto para muitas exclamações de ‘Isso é bem Apparat!’, que se ouve por aí. Para The Walls, Sascha não quis a interação de um set, com remixes e outras artimanhas que os DJs produtores utilizam para apenas jogar o álbum para o público. ‘Comecei a sentir que havia um abismo entre o álbum e o que eu tocava e decidi fazer esse projeto com a banda, que está me trazendo outro tipo de experiência com o público, mais indireta.’
Desde Duplex (2003), seu último álbum-solo antes de The Walls, ele não mais se pauta pelos efeitos proporcionados pela edição em computador. Not a Number começa com um violino melancólico e Hailing from The Edge ensaia um trip hop na voz de Raz Ohara, dinamarquês radicado em Berlim que também aposta no soul. O álbum está longe de uma produção para pista, com a diminuição de efeitos produzidos por sintetizadores e batidas não comerciais. Vai na contramão do beat que consagrou e ao mesmo tempo contribuiu para que os mais conservadores fizessem comentários depreciativos sobre a música eletrônica.
Sascha, que quis chegar o mais próximo do clássico processo de produção musical, cansou do laptop. ‘Sempre fui um nerd, estudo vários tipos de sonoridades e acredito que a interação com instrumentos dá uma idéia mais clara de pegar a melodia da música, e deixá-la menos exata. Também é um processo social, de gravação, de interação. Antes, era apenas eu e o computador.’
A preocupação com a melodia, no entanto, não afastou Apparat da música eletrônica. Apesar de achar que representantes da cena new rave abriram o campo da e-music para uma audiência maior, e que produtores como Timbaland fizeram grandes inovações na música, o DJ continua seguindo sua linha abstrata sem, segundo ele, colocar na música a responsabilidade de ‘determinar uma atitude ou impor uma identidade cultural por meio dela’.
No show, não vale nem procurar pela batida; tampouco por uma idéia preconcebida de banda. A mistura, que para Apparat não chega a tentar ampliar o público mais avesso ao trabalho do DJ, é para quem procura por algo novo de alguém que se auto-intitula ‘designer de som’, e cuja única regra é a desconstrução e o desejo de inovar.
Serviço. Motomix. Parque do Ibirapuera. Avenida Pedro Álvares Cabral, s/n.º, perto da Marquise. Dia 25 de novembro, a partir das 14h30. Grátis
